Progressão textual referencial, retórica, temática e tópica
A Competência IV de avaliação na Redação do ENEM observa o “conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação“. Nesse aspecto, tal atributo analisa, entre outros quesitos, a capacidade de estruturação lógica e formal, sequenciação e interdependência das ideias e a garantia de
continuidade e coesão textual. Logo, além do aprendizado sobre os recursos linguísticos, é imprescindível articular as estratégias argumentativas de progressão textual .
Com base nessa perspectiva, salienta-se que, no caso da redação do ENEM, o autor elege o tema central a ser tratado e, posteriormente, utiliza mecanismos linguísticos tais como pronomes, numerais, artigos, formas nominais e/ou elipse, a fim de retomar o referente (assunto de que se fala) sem a necessidade de se valer de uma repetição excessiva de termos. Nesse sentido, observe a tabela do INEP (BRASIL, 2019) sobre os principais tipos de coesão (referencial e sequencial) utilizados no texto dissertativo-argumentativo:

https://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/downloads/2020/Competencia_4.pdf
Em suma, nota-se que:
| Coesão referencial | Coesão sequencial |
| Formas gramaticais: pronomes, verbos advérbios, artigos, numerais ou elipse; Formas lexicais: sinônimos, hiperônimos e hipônimos, substantivos e adjetivos, nomes. | Sequenciação parafrástica: repetição de termos, estrutura sintática, conteúdo semântico ou recursos fonológicos; Sequenciação frástica: manutenção temática, períodos complexos e operadores argumentativos. |
| Formas gramaticais: o, a, os, as; ele, ela, eles; aquele, aquela; lá, ali; uma, outra; Formas lexicais: o estudo, a tese, a análise, a hipótese, a opinião; o candidanto, o estudante, o corretor. | Sequenciação por repetição de termos não é utilizada usualmente na redação. Paráfrase por Conteúdo Semântico: uso de recursos tais como “isto é, ou seja, ou melhor, quer dizer, em síntese, em resumo, em outras palavras“; |
Referenciação ou coesão referencial
O livro “Escrever e Argumentar“, de Ingedore Villaça Koch e Vanda Maria Elias, elege estratégias importantes no intento de se estabelecer correlações e articulações referenciais. Por isso, no roteiro de definição do assunto e posterior retomada desse referente, elenca-se certas premissas relacionadas a essa construção (KOCH, 2016, p. 87):
- O referente é construído no texto (TEMA/ASSUNTO instituído ou definido);
- A introdução do referente é realizada por uma expressão nominal;
- O referente permanece momentaneamente em cena;
- A retomada do referente pode ser realizada por meio de: pronomes, numerais, formas nominais e/ou elipse (omissão);
- As formas nominais promovem uma recategorização do referente;
- O referente cria um novo objeto do discurso.
Essas colocações revelam atributos importantes para a referenciação, por exemplo, por meio do uso de rótulos específicos, de forma prospectiva ou retrospectiva, como a “Constituição Cidadã”, a “Cidade Maravilhosa”, o “poeta dos escravos”; ou também, a retomada de tópicos já abordados, como “o estudo”, “a hipótese”, “a tese”, “a análise”; ainda sim, pode-se apresentar e reapresentar o referente através de expressôes nominais, como “o parque”, “o acervo natural”, o “patrimônio nacional”, entre outros. Portanto, nota-se que o emprego adequado dos recursos coesivos é essencial para a construção das relações semânticas (sentido) e a orientação argumentativa na direção do objetivo almejado pela autor: levar à ativação de imagens ou quadros mentais no leitor, a fim de persuadí-lo sobre o seu ponto de vista. Em síntese, as funções das expressões nominais se resumem em: categorização e encapsulamento (rotulagem) do referente, marcação de um parágrafo ou segmento textual e constituição de uma cadeia referencial orientada para uma conclusão.
Progressão Retórica
Além da referenciação, existem elementos imprescindíveis para garantir a coesão e a coerência textual. Porquanto, “as estratégias de progressão textual são procedimentos linguísticos por meio dos quais se estabelecem entre segmentos textuais relações semânticas e/ou pragmáticas“, dentre as quais se destaca a repetição como recurso retórico, em que se enquadram: paralelismo sintático (mesma estrutura), paráfrases (diferentes estruturas, mas conteúdo semântico similar) e recursos fonológicos (rima, ritmo, metro etc).(KOCH, 2016, p. 100).
No contexto da progressão textual, os itens relativos à repetição não se encaixam nas competências de avaliação da redação. Porém, torna-se relavante conhecer esses elementos para ampliar a gama de conhecimento sobre os mecanismos linguísticos. A saber, os quesitos que se adequam à coesão textual, de modo a evitar a excessiva repetição de termos, é o uso de paráfrase por meio de expressões introdutórias, as quais marcam ou antecedem um enunciado, como “isto é, ou seja, ou melhor, quer dizer, em síntese, em resumo, em outras palavras”.
Progressão Temática
A progressão temática é fundamental para a estruturação do texto dissertativo-argumentativo, visto que a definição do assunto central a ser tratato e os comentários tecidos a respeito desse tema estabelecem articulações correlacionadas entre si. Dessa forma, a associação entre os eixos ou blocos comunicativos [tema (do que se fala) e remas (sobre o que se fala)] confere encadeamento entre as ideias retratadas e, consequentemente, estabelece marcas de continuidade textual.
Nesse sentido, para elaborar uma redação bem estruturada, é possível utilizar-se intencionalmente da decomposição desses eixos, através de (I) progressão com tema constante e novos remas, (II) subdivisão do tema (hipertema) em temas parciais, (III) progressão linear (o tema se torna o rema da oração seguinte, e assim por diante), (IV) salto temático (sucessão de novos temas), (V) subdivisão do rema em outros temas ou ainda (VI) emprego de recursos retóricos (anteposição do rema).
Progressão Tópica
A progressão tópica, como noção profunda e complexa, caracteriza-se pela subdivisão do assunto em supertópicos, quadros tópicos, subtópicos e segmentos tópicos relacionados ao tema. Nesse aspecto, há duas propriedades princiapais: a centração (foco em um assunto) e a organicidade ( relações hierárquicas compostas por fragmentos recobertos por um mesmo tópico em vários níveis).

Na imagem, pode-se constatar que o supertópico forma um conjunto de quadros tópicos, os quais constituem um grupo de subtópicos, que, por sua vez, organizam uma coleção de segmentos tópicos. Por esse motivo, todos os elementos em subníveis estão “direta ou indiretamente relacionados ao tema geral ou supertópico discursivo”. Fato esse que garante dinamicidade e a fluidez textual, principalmente no que concerne ao ponto central e as diferentes perspectivas a respeito desse assunto. Logo, a “progressão garante continuidade entre o dito e o que se está por dizer”.
SÍNTESE
Na progressão referencial, o referente resume, recategoriza e/ou direciona a progressão textual para uma conclusão (tese).
Na retórica, há repetição sintática, semântica ou fonológica de forma intencial/retórica.
Por sua vez, na progressão temática, os elementos de mesmo campo lexical ou semântico criam um contínuo textual, por meio do tema e dos remas.
Ademais, a progressão tópica aborda a subdivisão do assunto em supertópicos, quadros tópicos, subtópicos e segmentos tópicos relacionados ao tema.
Em suma, esses recursos estabelecem a articulação entre o tema ou tópico central e os enunciados declarados sobre esse “objeto”, ou seja, as escolhas e o modo de ordenamento das informações de referenciação e sequenciação desvelam o que se escreve sobre o tema. Além disso, os tipos de progressão textual não se excluem uns aos outros, ou até mesmo, se entrecruzam mutuamente durante a produção textual. No contexto do vestibular, os corretores da redação avaliam como “o participante se vale dos recursos coesivos para articular os enunciados de seu texto”. Por esse motivo, nota-se que essas estratégias argumentativas são instrumentos indispensáveis ao candidato à tecedura estrutural e semântica da redação do ENEM.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
KOCH, Ingedore Grünfeld Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Escrever e argumentar. São Paulo: Contexto, 2016 (Reimpressão 2022).
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). ENEM Redações 2019: Manual de Correção da Redação Competência IV. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/enem/outros-documentos














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